Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos

Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos é uma danosa realidade que impacta a Natureza há anos. Os estudos sobre este impacto começaram em 1970, mas somente em 2001 foi identificada a sua ocorrência no ambiente aquático.

Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos - saneamentobasico.com.br
Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos – saneamentobasico.com.br

Antes da Primeira Revolução Industrial (século XVIII) a descarga de resíduos era praticamente de origem mineral ou vegetal. Neste marco, a fabricação do ferro doce e uso do carvão como energia viabilizaram o surgimento das máquinas a vapor. Este novo modus operandi transformou a economia planetária de artesanal-agrícola em urbano-industrial. Esse processo modificou a caracterização dos resíduos, alterando principalmente o tempo de decomposição, formulação e impactos decorrentes.

Entre a segunda metade do século XIX e a Segunda Guerra ocorreu a Segunda Revolução Industrial. Foi marcada principalmente pela produção do aço, a utilização de energia elétrica, o uso do petróleo em grande escala e a deflagrada expansão dessa indústria. A partir de 1920 iniciou-se uma gradativa e exponencial produção em escala de novo material, com inúmeras aplicações e fins. Denominado de plástico, este material revolucionou de forma contundente as descargas industriais, comerciais e domésticas. Outra característica preponderante é sua toxicidade e ampla poluição gerada pelo descarte ecologicamente não responsável. Sua degradação ocorre por fatores abióticos e bióticos.

O plástico

A palavra plástico tem origem grega e quer dizer o que pode ser moldado. A característica deste material é a capacidade de manter a sua forma após moldagem. 80% dos plásticos empregados no mercado são recicláveis (termoplásticos). Os plásticos denominados termorrígidos não permitem a reciclagem.

O problema maior são as descargas de partículas muito pequenas em escala micro e nano. Elas se acumulam no ambiente e também possuem potencial para penetrar nas membranas celulares de organismos aquáticos, gerando alterações no DNA e na genética desses animais. Este sério impacto é muito hostil à flora e fauna dos rios, mares e principalmente nos oceanos onde acaba se acumulando.

As pesquisas relacionadas aos impactos dos microplásticos no ambiente e efeitos nos organismos se intensificou bastante nas últimas décadas. Esses polímeros quando descarregados no ambiente podem gerar danos diretos ou indiretos à saúde, ecologia e economia.

Microplásticos – o que são e de onde vêm?

São partículas de plástico que medem entre 25 µm  a 5 mm de diâmetro. São fragmentadas pela ação da Natureza, em especial a fotodegradação, devido ao descarte exacerbado de plásticos no ambiente. Essas micropartículas já foram encontradas na água potável, em peixes e na cadeia alimentar humana.

Os danos à saúde decorrem da adsorção, processo onde átomos, moléculas ou íons são retidos em sólidos através de interações químicas ou físicas.  Em geral, essas partículas  expostas no ambiente causam efeitos tóxicos letais aos indivíduos. A falta de um protocolo padrão dificulta o processo de identificação na Natureza desses microplásticos. Estudos vêm sendo realizados, a fim de se criarem novos critérios consistentes, pois as pesquisas ainda se mostram bem incipientes. A Tabela 1 mostra as divergentes classificações de plásticos e suas dimensões, nas visões de diversos pesquisadores.

Classificações de plásticos e suas dimensões
Classificações de plásticos e suas dimensões

Segundo a WWF, cerca de 8,8 milhões de toneladas de plásticos são lançadas anualmente nos oceanos. Esse volume cobre a ilha de Manhattan 34 vezes, com uma camada de lixo na altura do joelho. A ONU alertou que se o problema não for mitigado, em 2050 teremos mais plásticos do que peixes nos oceanos.

Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos

Os microplásticos por apresentarem alta área de superfície podem gerar forte sorção (ação simultânea de absorção e adsorção) de compostos tóxicos. São substâncias nocivas, como os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, bifenilos policlorados e dicloro difenil tricloroetano. O tamanho e textura de partículas plásticas interferem na capacidade de adsorver ou lixiviar contaminantes. As condições ambientais influenciam na dinâmica de equilíbrio entre produtos químicos e plásticos impactando na acumulação química e na biodisponibilidade. Portanto, partículas plásticas interagem com os organismos através da ingestão, rompendo barreiras biológicas e se acumulando em tecidos e órgãos.

Esse processo é tóxico, devido a permanência nos organismos, de poluentes orgânicos persistentes, como hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, éteres difenílicos polibromados e bifenilos policlorados. Também ocorrem efeitos adversos, como a inibição do crescimento, desordens comportamentais  e alimentares, disfunção reprodutiva, mobilidade reduzida e morte.

No ambiente aquático, os microplásticos são os polímeros sintéticos mais persistentes e causam efeitos toxicológicos e venenosos em animais aquáticos. Os nano plásticos  conseguem atravessar a membrana citoplasmática e alteram a funcionalidade das células, inclusive as sanguíneas. Também impactam no processo fotossintético e podem causar alterações genéticas devido a mudanças no DNA.

Os contaminantes no ambiente também desequilibram a cadeia alimentar dos seres vivos e consequentemente afetam a saúde humana. Estudos que simulam a cadeia alimentar identificaram evidências da transferência trópica de microplásticos a partir da quantificação desses polímeros em organismos e seus predadores naturais, coletados em campo.

Nanopartículas de poliestireno são transportadas por meio da cadeia alimentar aquática de algas. Elas servem de alimentos para zooplânctons que nutrem peixes, cujos comportamentos e metabolismos lipídicos são alterados por esta contaminação. Desde a década de 80 vem sendo pesquisados os efeitos toxicológicos dos nano e microplásticos no ambiente e efeitos nos organismos. Constatou-se danos letais e subletais em algas, organismos ciliados, invertebrados, crustáceos, peixes e zooplânctons.

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As partículas plásticas reduzem o processo fotossintético e o crescimento das microalgas. O impacto gera efeitos negativos na cadeia alimentar de zooplânctons. Estes organismos acumulam as partículas e possivelmente provocam sequelas em brânquias, estômago e hepatopâncreas de caranguejos. Também induzem alterações nos tecidos e biomarcadores de peixes.

Resultados obtidos em estudos com a microalga Daphnia magna mostraram que partículas plásticas com 50 nm se mostraram tóxicas e causaram danos físicos neste organismo. A contaminação aumenta bastante a bioacumulação de fenantreno na Daphnia magna causando dissipação e transformação desta substância no ambiente aquático.

Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos - MMA
Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos – MMA

A ingestão involuntária de microplásticos ocorre em diversas situações e trazem malefício à fauna, flora e saúde pública. Causa implicações no intestino e outros órgãos e com ocorrência de efeitos tóxicos, os microplásticos, que medem entre 0,1 micrômetro e cinco milímetros confundem os animais marinhos. São similares a pequenas presas ou partículas de comida, o que propicia a contaminação de toda a cadeia alimentar. As micro partículas resultam de resíduos industriais, diretamente liberadas nos oceanos por meio de esgotos e rios ou se originam da decomposição de plásticos de maiores dimensões.

Pesquisadores britânicos descobriram micropartículas de plástico no intestino de camarões que habitam as 6 regiões oceânicas mais profundas da Terra. A poluição humana não se limita à superfície dos mares.

Na Fossa das Marianas (a mais profunda dos oceanos com 11 034 m), a leste das Filipinas, 100% dos animais estudados tinham fibras de plástico em seu trato digestivo. A contaminação nas profundezas dos oceanos é generalizada, já atinge a Fossa do Peru-Chile e a Fossa do Japão, a 15 mil km de distância.

Os detritos plásticos são um perigo para muitas espécies de animais, que podem ingeri-los ou se emaranhar neles. Tartarugas marinhas, caranguejos e aves costumam ser vítimas dessa poluição.

Microplástico no ambiente e efeitos no organismo - act.wemove.eu
Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos – act.wemove.eu

Cerca de 90% das aves marinhas têm plástico no organismo. A poluição dos oceanos está colocando em risco as aves marinhas do mundo. Até 2050, 99% dessas aves terão ingerido os microplásticos. Pesquisadores avaliaram a situação de 135 espécies de aves por meio de estudos feitos entre 1962 e 2012. A partir desses dados fizeram previsões baseadas nos níveis atuais de plástico nos oceanos.

Plânctons e pequenos animais se alimentam do plástico contaminado e, ao serem comidos por peixes maiores, propagam a intoxicação. No fim da cadeia, quando o ser humano se alimenta desses peixes maiores, está ingerindo também o plástico e os poluentes que se acumularam ao longo da cadeia. Além disso, a contaminação humana vem do consumo de água tratada e animais contaminados pelas partículas plásticas e da adsorção da pele, quando em contato com cosméticos que apresentam grande concentração de nano plásticos.

Milhares de cosméticos e produtos de higiene pessoal possuem microesferas plásticas que conferem textura mais leve a sua composição ou funcionam como esfoliantes. Essas partículas passam incólumes pelas redes de tratamento de esgoto e acabam contaminando rios, mares e oceanos.

O impacto é sério! Até a atmosfera está impregnada de nano plásticos e hoje em dia respiramos ar contaminado pelas partículas e nossas plantas são regadas por chuvas cada vez mais infestadas.

 Lei indelével

A infestação plastica no ambiente planetário e em especial nos oceanos é um mal contemporâneo que necessita saneamento. Essas descargas vem se acumulando de forma avassaladora em toda a crosta terrestre. A cada dia novos e preocupantes impactos decorrentes são identificados. Nossa capacidade tecnológica e mental têm plena capacidade para mitigar este dano. Isso não acontece porque o que rege o modus operandi mundial é uma preponderância econômica, a variável ambiental não é cogitada.

É curioso que nós impactamos e nós somos elos da mesma teia que compõe o planeta, a Natureza e o Universo. A humanidade como um todo não priorizando a conservação ambiental e de certa forma vem provocando seu inconsciente suicídio futuro.

Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos - MMA
Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos – MMA

A ação local é fundamental, mas a indústria do petróleo é economicamente a mais poderosa no planeta. E não se importa em ver o planeta ruir, somente acumular cifrões e nunca com a conservação da vida.

O mínimo a fazermos é banir em definitivo produtos alimentícios, de higiene e beleza que geram resíduos de nano e microplásticos. Porque o maior problema é que as estações de esgotamento sanitário e descargas de resíduos sólidos não impedem a contaminação de microplásticos nos ambientes aquáticos. A prioridade máxima é minimizar o despejo de plásticos e maximizar os sistemas sanitários.

(Leia aqui a continuação desse texto: Como evitar o microplástico)

Fontes dos dados citatos neste texto

Imagem destacada: Microplástico no ambiente e efeitos nos organismos (somethingmore.pt)

Gracias Natalie Andreoli pelos artigos e sinergia.

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